Hoje vim falar de um livro que li recentemente, chamado A Sombra do Mago. Ele está disponível em várias plataformas digitais, mas eu o li pelo aplicativo ElevenReader, um app que faz leituras com vozes de IA bem realistas, deixando a experiência muito gostosa. Ele também permite escolhermos um som ambiente ou uma musiquinha de fundo para aumentar ainda mais o clima, e eu li esse livro escutando o som relaxante de uma fogueira, o que foi bem legal.

O livro não é grande, li em um dia só, e promete ser uma fantasia épica e sombria, capaz de nos fazer refletir. E cumpre essa promessa com maestria, por motivos nos quais vou me aprofundar já já.

O autor, Ademir F. Silva, é brasileiro, e sempre dá um calorzinho no coração ler literatura fantástica made in Brasil, o que já começou sendo um ponto positivo.

Bem, sem mais delongas, vamos aos comentários sobre o livro.

A história começa de um jeito bem envolvente, e somos apresentados a uma escrita bonita, com descrições vívidas dos cenários, de forma a ativar o nosso repertório sensorial de um jeitinho bem agradável. As imagens construídas por meio das descrições das montanhas, da floresta e da casinha onde Kassim, o personagem principal, vive com sua esposa, Alissa, e sua filha, Estela — são absolutamente arrebatadoras e nos transportam para dentro da história já nos primeiros parágrafos.

Kassim é um contemplador de estrelas, profissão que aprendeu com seu pai. Entretanto, nunca deu muita importância ao ofício ou aos seus possíveis significados, pelo menos não até o surgimento de uma misteriosa estrela vermelha no céu. O astro parece prenunciar uma grande desgraça, embora Kassim ainda não compreenda exatamente o que está por vir. Mais tarde, quando sua vida é destruída e ele é levado como escravo, a estrela ganha um significado muito mais sombrio.

O amor que ele sente pela esposa e pela filha também é encantador, e a presença desse amor é algo que permeia toda a narrativa, dos momentos mais suaves aos mais difíceis que virão a seguir.

Sua filha, a pequena Estela, está adoentada, sofrendo com febres terríveis. Eles moram nas montanhas, em um rancho da família de Kassim, o que o personagem julga não ter sido uma boa decisão naquele momento, visto que ali, apesar de toda a calmaria inerente ao lugar, também estão distantes do grande centro, do mercado e dos médicos.

Kassim e Alissa já não sabem o que fazer para ajudá-la. É quando, temendo pela vida de sua pequena, o homem resolve enfrentar uma viagem até a Cidade dos Livres, o ponto comercial mais próximo, a fim de encontrar algum remédio com um herbalista para curar sua filha.

Ele segue viagem, e sua trajetória pela floresta foi um ponto que me marcou bastante. A incerteza do retorno e da cura de Estela, suas lembranças familiares e a descrição vívida da caminhada pela noite sombria até a Cidade dos Livres me marcaram por algum motivo, pois, enquanto ele pensava em tudo isso, a curiosidade de saber se Estela sobreviveria ou não enchia a minha mente.

Confesso que, nesse momento, enquanto lia essas páginas, julguei que a história se desenvolveria ao redor desse dilema, com a saúde e o crescimento da menina sendo o foco central da narrativa no decorrer do livro. Perguntei-me se ela se tornaria maga, se ele, um homem comum, teria que fazer algum negócio com um mago para salvá-la e se a história seguiria pelas consequências disso, ou algo assim.

A verdade é que eu não sabia muito bem o que esperar, visto que não li nenhuma sinopse ou algo parecido antes de mergulhar no livro.

Bem, minhas expectativas estavam erradas.

Assim que chega à cidade e consegue um remédio com um herbalista, Kassim está prestes a voltar para casa quando é surpreendido por uma invasão à Cidade dos Livres. Criaturas demoníacas, sem rosto e com uma fúria nunca vista, conseguem subjugar os guardas e invadir a cidade, que já resistira por tanto tempo à tirania de governadores humanos.

Nesse momento, a estrela vermelha que Kassim havia visto no céu parece finalmente cumprir seu mau presságio. A desgraça anunciada chega de forma brutal, destruindo não apenas a Cidade dos Livres, mas também todas as esperanças de Kassim de retornar tranquilamente para sua família. Quando a garrafinha cai e o remédio precioso se derrama no chão, juro que senti uma dorzinha no coração junto com ele, haha.

Bom, tanto Kassim quanto outros homens em boa forma e com idade para trabalhar, que não são guardas, claro, são levados como escravos pelas criaturas, que ali deduzi se tratarem de servos do tal mago a qual o título do livro se refere. Praticamente todas as mulheres, crianças e guardas da cidade são mortos, e os que sobrevivem precisam ver seus parentes e amigos sendo levados pelas criaturas sombrias, posteriormente denominadas de Silenciosos.

As provações às quais os escravos são submetidos a partir desse ponto são terríveis. Fome, sede e violências das mais diversas e terríveis naturezas são descritas durante a história. Não vou me prolongar, pois não quero tirar a graça da leitura de vocês, mas basta saber que é preciso ter estômago de verdade. Carne queimada, dor, morte, mutilações e exaustão causada pelo trabalho forçado são elementos bem frequentes na narrativa.

Os homens, então, são levados para o meio do deserto, onde são forçados a trabalhar na construção de uma torre em nome do tal mago, chamado Khalamôrdo. Nesse novo cenário, Kassim faz bons amigos, perde outros, sofre, aprende e tem sua alma transformada para sempre.

O leitor, ao ser conduzido durante sua trajetória, acaba sendo surpreendido pela maldade que os Silenciosos e Isnar — o arquiteto humano contratado pelo mago para vistoriar e comandar o trabalho dos escravos — demonstram a todo momento.

Sério, esse livro é um daqueles em que um personagem é mais maldoso e detestável do que o outro! A gente vai se impactando a cada página, meio que perdendo cada vez mais as esperanças de que alguém sairá vivo dali.

Bom, é nesse cenário de desolação, durante os anos que Kassim passa como escravo, que o ponto central da narrativa realmente acontece. Como disse, enganei-me ao achar que tudo giraria em torno de Estela ou de sua vida. Apesar de sempre se lembrar de sua família, o desenvolvimento de Kassim como personagem se dá por meio de outros artifícios narrativos.

Ao menos em minha opinião, esse livro, para além de cumprir seu papel como narrativa fantástica com aquele gostinho de épico, leva-nos a refletir e navegar por caminhos muito mais complexos e questionadores da própria natureza do poder, da ordem e do bem.

Isso ocorre porque somos apresentados a três extremos.

O primeiro é Kassim, um homem livre, criado segundo as próprias leis, na Cidade dos Livres, uma terra anarquista que não se submete a imperador, rei ou qualquer tipo de governante. A cidade tem suas regras, seu jeito de funcionar e não depende do temor imposto por um rei, por exemplo, para que isso aconteça. O que guia os homens é o bom senso e a lógica, e a população daquele lugar constrói as próprias regras, que são bem razoáveis, para ser sincera. Mas não sei se funcionariam fora de um livro, na verdade.

O outro lado da história vem do personagem Emir. Antes de ser capturado e levado para a escravidão no deserto, Emir era o valoroso rei de uma nação chamada Marênia. Sendo um monarca, ele se assombra com a forma como a Cidade dos Livres pode existir em harmonia sem o comando de uma autoridade superior. Nesse sentido, tem inúmeras e bastante interessantes conversas com Kassim, de quem se torna muito amigo, para compreender os costumes e as normas da cidade.

É basicamente um defensor da anarquia e outro da monarquia se encontrando e resolvendo bater um papo para que cada um compreenda o outro.

O terceiro extremo a gente descobre mais para a frente, e ele aparece na figura do mago.

Basicamente, Khalamôrdo sofreu muito na infância e não entendia as injustiças do mundo. Não compreendia a liberdade dos homens nem o poder que alguns tinham de viver melhor do que seus irmãos sem repartir um quinhão de seus bens com os mais necessitados.

Alma nobre, não é? Inicialmente, sim.

Contudo, ao crescer com esses pensamentos, Khalamôrdo julgou que a solução para todas as injustiças do mundo era aniquilar toda a existência e começar do zero. Tipo: passar a borracha em tudo o que os deuses fizeram de errado e bora iniciar uma nova existência.

Para isso, ele decide invocar uma entidade maligna, um espírito faminto que devoraria tudo e todos, inclusive os deuses. No fim, com a barriguinha cheia, a criatura daria o poder dos deuses ao seu invocador e cairia fora. Ou seja, o mago se tornaria um deus e pretendia começar um novo mundo.

Seria uma espécie de comunismo, com todos os novos humanos seguindo somente as suas leis, sem questionar. Ele pretendia que não existissem ricos nem pobres, que tudo fosse dividido e tudo mais. Na teoria, a ideia dele era bondosa, mas os meios que admite utilizar para justificar o seu fim perfeito são terríveis, como o sofrimento de todos aqueles escravos para alimentar a invocação do tal Faminto.

Por isso, senti que o ponto central da história foi refletir sobre o poder, as motivações, a própria natureza do bem e do mal e a área cinzenta que existe entre eles. Isso, para mim, não foi um ponto negativo, apenas algo diferente do que eu esperava.

Não vou contar o final nem dizer se Kassim consegue ou não derrotar o mago, porque acho que vocês devem ter o prazer de ler e descobrir por conta própria.

Como falei, a história é boa e tem diversos pontos positivos, mas vou pontuar algumas coisas das quais senti falta como leitora.

Bem, senti falta de um desenvolvimento maior de Alissa e da pequena Estela. Não que o autor nos engane, parecendo que vai desenvolver isso e depois não o faça, já que, desde o início, o foco está em Kassim. Mas confesso que achei essa camada da história encantadora e gostaria de saber mais sobre elas.

Seria incrível, ter, por exemplo, a versão de Alissa sobre os fatos depois que seu marido foi capturado. Ela soube da invasão? Como lidou com a doença de Estela? Enfim, eu queria muito saber mais sobre esse núcleo da história.

A magia e suas leis também não são muito exploradas. Embora esse não seja o foco, gosto desse nível de detalhamento em um livro de fantasia.

Fora isso, não tenho muito o que dizer. Apoio iniciativas como a de Ademir, de publicar por conta própria, e foi um prazer ler sua história. Recomendo para quem gosta desse tipo de narrativa e pretendo ler mais coisas dele por aí!

PS. Li o livro usando uma voz de leitura, então alguns nomes próprios podem estar com grafia incorreta.